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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental

Por Eduardo Galeano, em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Eduardo Galeano é escritor


Fonte: Revista "Caros Amigos" de 20.01.2010

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O cotidiano em um país miserável


Reuters
Grávida vende manga na favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe, a capital do Haiti, o país caribenho mais pobre do hemisfério ocidental


Por César Felício, de Porto Príncipe
13/06/2008


A miséria e o colorido intenso se entrelaçam e se explicam em Porto Príncipe, a capital com cerca de 2 milhões de habitantes do país caribenho considerado o mais pobre do hemisfério ocidental. As escolas públicas praticamente inexistem no Haiti. As particulares cobram mensalidades que podem ultrapassar facilmente os US$ 100, em um país onde o salário mínimo é de US$ 1,80 por dia.

A conseqüência direta é a taxa de analfabetismo de 48% da população. E o drible dos haitianos em busca da sobrevivência está nos muros e nas paredes das casas de bairros como Delmas e Cité Soleil: é raro encontrar uma loja que não esteja toda pintada para permitir a comunicação visual. Onde se desenha uma mulher sendo penteada, lá é o cabeleireiro. Um porco ou uma galinha indicam um açougue e assim por diante.

As ruas que levam à parte alta de Porto Príncipe, onde mora cerca de 20% da população que está acima da linha da pobreza, estão travadas por um congestionamento permanente. A razão não é o excesso dos carros em mau estado de conservação, alguns com o cinto de segurança colocado de modo a segurar a porta, mas a falta de tudo. Não há calçadas que separem pedestres e carros nem semáforos a ordenar os cruzamentos. Em dois dias inteiros circulando pela cidade, apenas dois sinais de trânsito foram avistados.

O palácio do governo, um colosso branco plantado no centro da cidade, chega a ofuscar os olhos ao refletir o sol. Está em frente de uma grande praça, o Campo de Marte, e cercado por camelódromos e casebres coloridos. O bem-estar haitiano está a muitos quilômetros dali. O subúrbio de Petionville é normalmente descrito como o bairro da elite na capital haitiana, mas nem remotamente pode ser comparado a locais como os Jardins, em São Paulo; o Leblon, no Rio; ou o Lago Sul, em Brasília. No alto de colinas onde a vegetação inexistente nas regiões centrais da cidade se faz presente, Petionville entremeia favelas com núcleos acastelados, espécie de condomínios onde um punhado de casas de alto padrão é mantido isolado.

Um deles é o criado em torno do Hotel Montana, o melhor do Haiti, que cobra US$ 5 por dia dos hóspedes para financiar o uso dos geradores de energia elétrica. Os proprietários, a família Cardozo, é renomada como a mais rica do país. Quase anexos ao hotel estão os escritórios de vários órgãos internacionais, a embaixada britânica e residências de diplomatas.

Outro núcleo, longe de Petionville, é o que gravita em torno da embaixada americana, em Tabarre, a meio caminho entre o centro da cidade e o quartel das tropas da ONU no país. Na mesma direção fica o solitário orgulho industrial haitiano: a cervejaria Brana, da família Madsen, associada à Pepsi, que produz a Prestige, uma lager com acentuado sabor de cereal.

Substituídos a cada seis meses, em média, os soldados brasileiros são orientados a se entrosar com a população. Organizam peladas no fim de semana, distribuem bombons em favelas como Cité Soleil e Belair e até ensinam palavras em português quando abordados. No entanto, o crescimento do clima da hostilidade da população é percebido com clareza. "Passei uma temporada em Angola e agora no Haiti. A pobreza é a mesma, mas as pessoas não. Aqui acontecem crueldades inacreditáveis. As pessoas não têm Deus no coração", comentou um devoto fuzileiro naval, que patrulha as ruas carregando 15 quilos de apetrechos na farda.

Na distribuição de comida organizada pelo Exército em Cité Soleil, assistida pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, e convenientemente distante da feira de alimentos de Porto Príncipe - realizada em uma espécie de lixão, a "cozinha do inferno" -, os militares brasileiros separavam dois blocos: um ajuizadamente na fila aguardava para receber um saco com fubá, óleo de soja, peixe seco e arroz. O outro cercava o local e reclamava por não ter recebido a senha para entrar. Na saída de cena dos jornalistas, aproveitaram para gritar frases como "tenho fome" e "quero comer". Grávida, uma garota com cerca de 14 ou 15 anos ainda falou "Brésil" e acompanhou a menção com um gesto obsceno.


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 13.06.2008.