quinta-feira, 19 de junho de 2008

Alienação





Brasileiro não sabe votar!
Quem não ouviu essa frase pelo menos uma vez na vida? Quem nunca proferiu essa frase?
Em sala de aula, uso a frase, e a maioria dos alunos concorda com ela. Então eu questiono: você se inclui nesse grupo de "brasileiros" ou se exclui dele?
Na teoria do conhecimento, a generalização, capacidade de falar com certeza sobre temas que absolutamente desconhece é tida como uma das falhas clássicas de raciocínio.
Entre nós, o clientelismo eleitoral tem raízes culturais históricas, e é uma realidade que a observação empírica confirma: as eleições brasileiras são caracterizadas por intensa negociação de bens materiais, favores administrativos e promessa de cargos. Visto o assunto essencialmente desse ângulo, as pessoas que vendem seu voto, que se tornam alienadas, pertencem às camadas mais carentes da população. Essa é uma visão preconceituosa, pois nos grupos de elite encontramos empresas que terão maiores benefícios se "um" dos candidatos vencer, ou mesmo em setores de classe média, que imaginam maior possibilidade de emprego no serviço público.
Então o que significa saber votar?

Conhecimento e Participação

A pessoa alienada perde a compreensão do mundo em que vive e torna-se alheia a segmentos importantes da realidade em que se acha inserida. Alienar é transferir para outro o que é seu.
Se a Revolução Industrial promoveu a separação entre produtor e produto, determinando a alienação ante o trabalho, também fez nascer, durante o século XIX, um grupo intermediário numeroso, que chamamos de classe média, que veio acompanhado pelo aumento do individualismo, por maior interesse pela vida privada e, portanto, pela diminuição do envolvimento pessoal com as questões públicas e políticas. Isso acontece porque é em casa que a pessoa se sente como "ser humano", é esse o espaço onde sua presença e suas decisões são importantes, ao contrário da situação vivida no trabalho, em que é apenas uma peça de uma engrenagem sobre a qual não tem controle ou poder de decisão. A alienação passa a ser percebida na vida social do indivíduo, com a formação da "sociedade de consumo", expressão que carrega uma conotação negativa, pois esse consumo não depende mais da decisão consciente de cada indivíduo, baseada em suas necessidades e seus gostos, mas torna-se fruto de necessidades artificialmente estimuladas - fica claro que o papel dos meios de comunicação nisso é fundamental. Então a culpa é dos meios de comunicação?
Não é necessário encontrar um culpado, mas entender de que maneira ocorre o processo de alienação, querer buscar suas raízes e compreendê-lo significa deixar de ser alienado. Os meios de comunicação podem contribuir para esse processo de conscientização ou são apenas elementos alienadores?
Outra característica do consumismo é o fortalecimento do individualismo, que se manifesta, por exemplo, quando o valor de alguém lhe é dado pelos bens que possui, desprezando outros valores, como a ética ou seu comprometimento social. Percebemos essa situação com o aumento da discriminação às pessoas mais pobres, principalmente nos grandes centros urbanos, onde é comum ouvir reclamações "do carro velho que atrapalha" ou insinuações de que "o indivíduo malvestido pode ser um assaltante". Ao mesmo tempo, líderes sociais são ridicularizados por que perdem seu tempo. Quando o tempo é ganho? De que forma o tempo é mais bem aproveitado? Ao dormir durante a tarde, o tempo é aproveitado? Ou é melhor ficar estudando? Talvez seja melhor utilizar o tempo para ganhar algum dinheiro? Poderíamos propor outras questões, mas a resposta é a mesma! O melhor é...
Que resposta caberia a todas essas perguntas?


Texto publicado no jornal HISTÓRIA EM MANCHETE

PS: Agradecimentos ao site Brasil Cultura onde publicou esse texto

Meu nome era JUDAS




RESENHA

O escritor C.K. Stead propõe uma polêmica alternativa ao Novo Testamento ao contar a história de Jesus pelo ponto de vista de Judas Iscariotes. Nesta versão não há traição, não há beijo, não há divindade, não há milagres, não há suicídio. A história de Judas
é a de um homem que ousou ir contra a tradição de sua família para abraçar a causa que lhe parecia verdadeira. Depois, testemunha do suplício de Jesus, ele sente perder a esperança quando ouve seu desabafo na cruz: ”Senhor Deus do Céu, por que me abandonaste?”. Décadas mais tarde, tendo renunciado a seu nome, a seu povo e a sua fé, Judas acompanha as notícias sobre a nova religião cristã que então desponta, cujos seguidores insistem em chamá-lo de traidor.

Editora: Arx
ISBN: 9788575812686
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 240
Acabamento:
Brochura
Formato: Médio
Complemento da Edição: Nenhum

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quarta-feira, 18 de junho de 2008

CHARGE DA SEMANA




Fonte: Jornal "Brasil de Fato" de 18.06.2008

"Leões e Cordeiros" Download via torrent


Sinopse

Arian (Derek Luke) e Ernest (Michael Peña) são dois alunos universitários inspirados por seu professor cheio de ideais, Dr. Malley (Robert Redford). Desejando fazer algo de importante em suas vidas, resolvem se alistar no Exército e entrar na linha de fogo no Afeganistão. O filme acompanha as histórias pessoais desses dois personagens, que representam dois lados opostos da sociedade norte-americana. Além disso, em Washington D.C., o senador Jasper Irving (Tom Cruise) – carismático candidato à presidência dos EUA – está prestes a contar uma história bombástica à jornalista Janine Roth (Meryl Streep), a qual pode determinar para sempre os destinos de Arian e Ernest.

Elenco e créditos

Elenco:

Robert Redford, Meryl Streep, Tom Cruise, Michael Peña, Peter Berg e Derek Luke

Direção: Robert Redford
Produção: Matthew Michael Carnahan, Tracy Falco, Andrew Hauptman, Robert Redford
Fotografia: Philippe Rousselot
Trilha Sonora: Mark Isham

Crítica por Celso Sabadin

Provavelmente, a maioria das pessoas ainda não parou para pensar que o conflito entre EUA e Iraque já dura mais que a Segunda Guerra Mundial. E certamente não vai terminar tão cedo. É justamente este o maior mérito do filme Leões e Cordeiros: fazer com que as pessoas parem e pensem: no absurdo desta guerra fabricada, na função de cada indivíduo dentro da sociedade e no papel da mídia. Dirigido e protagonizado por Robert Redford, Leões e Cordeiros propõe exatamente o contrário da maioria dos filmes norte-americanos: pensar. O que é coerente com a longa carreira de Redford, sempre associada a trabalhos ligados a causas políticas e humanitárias.

O belíssimo roteiro do quase estreante Matthew Michael Carnahan (anteriormente, só havia roteirizado O Reino, com Jamie Foxx) propõe três situações distintas, desenvolvidas em três locais diferentes, mas ao mesmo tempo. Na primeira, passada em Washington, a conceituada jornalista Janine (Meryl Streep) consegue uma entrevista exclusiva de uma hora de duração com o jovem senador Irving (Tom Cruise). Na segunda, ambientada na Universidade da Califórnia, o experiente professor Malley (Redford) também concede uma hora de conversa, a portas fechadas, com o jovem Todd (Andrew Garfield), aluno brilhante, mas totalmente desmotivado. Na terceira, ocorrida em algum lugar do Afeganistão, os soldados Ernest (Michael Peña) e Arian (Derek Luke) lutam desesperadamente pela sobrevivência.

Estas três situações vão se entrelaçando no decorrer da trama para formar um instigante painel da sociedade americana, no qual se vêem claramente representados o jornalismo, a política, o exército, a escola, a juventude classe média alta e a menos favorecida. Todos discutindo, basicamente, duas questões perturbadoras: o que significa esta guerra contra o Iraque e qual é, afinal, o papel de cada um dentro desta insanidade.

Como se percebe, Leões e Cordeiros não é um mero entretenimento. Bastante verbal (a primeira idéia do roteirista era escrever uma peça de teatro), exige atenção plena do espectador, mas recompensa o esforço com diálogos brilhantes, uma ótima discussão política e interpretações memoráveis. Até Tom Cruise, no papel do político empertigado, se sai bem.

O filme não se propõe a apontar respostas, mas sim a incomodar com as perguntas. O que é muito mais interessante e provocativo tanto para quem gosta de cinema como para quem não dispensa uma boa argumentação para um dos temas mais absurdos dos últimos anos: os US$ 12,5 milhões por hora (é isso mesmo, por hora!) que a Casa Branca gasta na Guerra do Iraque.

Veja e pense.

Fonte: "Yahoo! Cinema"

Download Filme e legenda (torrent)

Mídia e Mílicia


16/06/2008

Ivana Bentes


É grave um jornal ou jornalistas serem chantageados, torturados, tolhidos em sua função de investigar, mas ninguém se pergunta porque na ficção a novela das oito que terminou, Duas Caras, mostrava uma favela bem resolvida sob o comando de uma “milícia do bem”, romantizada e glamourizada na figura de Antonio Fagundes, o Juvenal da Portelinha, líder da “milícia legal” que seriam “diferentes” dos milicianos que torturaram e expulsaram jornalistas da favela do Batan, em Realengo, aqui no nosso Rio de Janeiro.

Mas afinal o que tem em comum a Mídia e a Milícia? Não podemos esquecer que a mídia hoje é uma espécie de “primeiro comando simbólico da capital”. É identificada como um lugar de poder, que pode se usar tanto para aprofundar a democracia quanto para golpeá-la. Não só a milícia pratica a ilegalidade, como também a própria mídia, hoje, atua nessa zona obscura entre o legal/ilegal, ético/anti-ético, utilizando métodos policiais como as câmeras escondidas e grampos telefônicos, nas suas “investigações”, nem sempre neutras ou desinteressadas.

Essa invasão da privacidade, segundo o contexto, pode ser tão grave quanto outras aberrações, como a tortura. A sociedade deve questionar tanto os métodos policiais quanto os midiáticos, colocar em questão o corporativismo da polícia, da mídia e da milícia.

A importância dada ao debate acerca da segurança dos jornalistas e da liberdade de imprensa não deveria obscurecer a crueldade da disseminação da tortura policial, real ou simbólica, subjetiva. Práticas de ostentação de poder que podem afetar qualquer um.

Quando a vítima de tortura é o cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder simbólico, como os jornalistas, não encontramos o mesmo nível de indignação. Pouco se fala sobre o morador que também sofreu com os atos de tortura e se encontra desaparecido. Na mídia, a fonte primordial de informações sobre as favelas, ainda é a própria polícia, o que só complica, quando a policia se mistura com as milícias ou a mídia virá lugar de negociação e produção de crise e de poder.

MIDIATIVISMO e MIDIA LIVRE

Daí a importância dos novos produtores de mídia, midiativistas e midialivristas, que produzem uma outra comunicação sobre as favelas e periferias, deslocando os discursos do medo e do terror que simbolicamente exilam a favela e criam um estado de exceção, real e simbólico.

É ai onde a mídia tradicional não consegue entrar que se deve fortalecer essas redes, blogs, sites, observatórios, “Pontos de Mídia”, como o Observatório de Favelas da Maré, a CUFA (Central Única das Favelas) em Cidade de Deus e em favelas no Brasil todo, o Nós do Morro, no Vidigal, centenas de coletivos de mídia em todo Brasil. Redes que neutralizam o terror e o medo, que criam uma inclusão subjetiva das favelas e periferias na comunicação da cidade, neutralizando o clima de terror que abole o direito de enunciação.

Entre esses novos fazedores de mídia, uma das experiências mais singulares é o CANAL** MOTOBOY, em que os motoqueiros fazem a emissão de vídeos, fotos, imagens e texto por celular de toda a grande São Paulo, durante sua jornada de trabalho ou lazer. Vão mapeando a cidade, seu fluxo, sua deriva, seus bons encontros e também terríveis acidentes de moto e carro (condições adversas de trabalho), mapeando vias e vidas, viadutos, jardins, automóveis, pessoas e paisagens. São os Motoboys de SP fazendo mídia e formando para mídia, o exemplo mais radical de autonomia e liberdade pela mídia.

O Canal Motoboy, o Nós do Morro, CUFA, Cubo Vídeo, Observatório de Favelas, Festival Visões Periféricas, Oficina de Imagens, professores, estudantes, jornalistas, midialivristas, radialistas, produtores de audiovisual, fazedores de políticas públicas estiveram reunidos no I Fórum de Mídia Livre, que aconteceu nesse fim de semana, dia 14 e 15 de junho de 2008 na Escola de Comunicação da UFRJ.

São os nós da rede se ativando e despertando para um contexto radical em que a mídia explode com o corporativismo e se torna biopolítica, se torna vital.

LINKs


http://forumdemidialivre.blogspot.com

http://www.zexe.net/SAOPAULO/



Ivana Bentes

Capturas

terça-feira, 17 de junho de 2008

O Corvo


Edgar Allan Poe (Boston, 1809 – Baltimore, 7 de Outubro 1849)


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!


Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.


Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."


Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".


Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".


Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".


A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o Corvo, "nunca mais".


"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".


"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".


"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".


E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!


* trad. Fernando Pessoa - 1924

segunda-feira, 16 de junho de 2008

45 do Segundo Tempo


16/06/2008 18:11:38


Sócrates, ex-craque do Corinthians e da seleção brasileira sempre considerou que seu papel de homem público ia além das quatro linhas. Dono de um estilo elegante em campo, destacou-se como um dos principais idealizadores do movimento Democracia Corintiana, que lutou contra hábitos autoritários no futebol.

CartaCapital: Houve alguma mudança tática substancial no futebol desde a Copa de 1994?

Sócrates:
Tática, não. Houve uma evolução física dos atletas. O jogo foi ficando mais feio, com maior contato físico, menos tempo para pensar. Ocorreu uma desvalorização do talento, da habilidade. Na verdade, é um esporte em extinção.

CC: Por quê?

Sócrates:
O futebol sempre foi fascinante por não premiar a regularidade, por permitir que um time mais fraco ou menos preparado vença. Onde há espaço para o acaso, o incidente. Mas daqui a pouco, do jeito que as coisas caminham, não será mais assim. Todos serão iguais e nem os “acidentes” ocorrerão mais. Por que, se todo mundo se preparar para o óbvio, os riscos de uma adversidade diminui e o jogo vai ficando mais chato. Hoje em dia, torce-se para o trapezista cair. Raramente vê-se uma jogada de talento, de habilidade. Mas, quando ela ocorre, costuma ser decisiva.

CC: Aumentar o campo ou diminuir o número de jogadores faria diferença?

Sócrates:
Acho que se poderia reduzir o número de jogadores para nove. Mas acho improvável que ocorra essa mudança. Em comparação com os anos 70, quando, acredito, o futebol atingiu o pico de qualidade técnica, houve uma brutal evolução física. Os jogadores, há 30, 40 anos, corriam 4 quilômetros por jogo. Hoje correm mais de 12 quilômetros.

CC: O futebol inglês parece um paradoxo, diante dessa realidade. Melhorou tecnicamente, atrai público e, neste ano, dominou a Copa dos Campeões na Europa. O que acontece lá?

Sócrates:
O futebol inglês fez o percurso que outros tinham feito antes. Era o mais feio, violento e irracional. No fim dos anos 80, mudaram tudo. Tiveram coragem de mexer nas estruturas: nos clubes, no estádios, na polícia. Lá o futebol deixou de ser foco de conflitos e virou casa de espetáculos. Saíram do fundo do poço porque antes não jogavam futebol. É como o São Paulo atual, que parece um time inglês de 30 anos atrás, o cara que cruza a bola 50 vezes por minuto na área. Os ingleses puseram a bola no chão. Por isso são exceção. No continente europeu, está todo mundo caindo. Os italianos foram os primeiros a instituir a idéia do futebol como negócio, mas não conseguiram sustentar essa estrutura. O fluxo de torcedores aos estádios por lá caiu 40% nos últimos anos.

CC: Há algo de especial nessa geração atual do futebol brasileiro?

Sócrates:
O jogador brasileiro é diferente, por princípio. Sempre vai ser especial. Isso tem a ver, entre outras coisas, com a miscigenação, com as fibras longas dos nossos atletas. O maior problema é de formação. Isso está cada dia mais claro, até para quem não entende de futebol. Trabalhamos muito mal a base. Não temos escola de treinadores, não há a menor preocupação com a formação intelectual dos indivíduos. Quanto à qualidade, ela caiu. A responsabilidade é da influência do poder econômico, que seleciona um tipo de jogador mais fácil de ser negociado ao exterior, com certas características que, em geral, não estão relacionadas ao talento. Uma escolha burra, no fim. Tem atleta negociado ao exterior que não sabe dar um passe. Se ficasse um mês na Bahia, garanto que encontraria ao menos uns 20 garotos muito melhores do que a maioria dos titulares dos principais times do Brasil. Por que esses moleques não estão nos gramados? Porque não foram descobertos por quem faz a intermediação. Não se busca mais o jogador diferenciado.

CC: Por falar em diferenciados, ou diferentes, o que se passa com o Ronaldinho Gaúcho?

Sócrates:
Continua tendo o mesmo talento de antes. O que mudou foi a sua relação com o público do Barcelona. Há uma fase em que, como no caso do cantor, tudo que se faz, mesmo os erros, são aplaudidos pelos fãs. Mas o beneplácito acaba quando a paixão acaba. E é muito difícil reconquistar, precisa ter estrutura emocional. Durante dois anos, tudo que o Ronaldinho tentava, dando certo ou errado, era aplaudido. Não que não possa ocorrer novamente, mas hoje ele não tem mais coragem de tentar para não ser criticado. Seu desempenho está muito abaixo do que foi nas últimas temporadas. Acredito que, se lhe derem oportunidade, ele vai fazer as mesmas coisas de antes ou até melhor. Sendo massacrado, ele não vai conseguir manter o nível, que, eventualmente, está mais na fantasia do torcedor do que na sua real habilidade.

CC: E o Fenômeno?

Sócrates:
Desde que o Ronaldo foi para a Holanda, colocaram uma sobrecarga muito grande sobre ele. Basta ver a sua massa muscular de quando jogava no Cruzeiro e depois de ir para a Europa. Aí não tem ligamento que agüente. Quando o Ronaldo fez a primeira cirurgia do tendão, um especialista, de quem não posso citar o nome, por questões profissionais, contou-me que o outro tendão já estava na mesma situação. Ou seja, era uma questão de tempo estourar também. E foi o que aconteceu. Acabaram com a estrutura física dele. É um típico caso de absurda exploração de imagem. Acabaram com o atleta, com o artista, com o ser humano.

CC: De volta ao assunto da formação dos atletas: há alguma iniciativa pública relevante?

Sócrates:
Ninguém quer discutir isso. Todo jogador de futebol tinha de ter, no mínimo, nível médio de educação. Para o moleque nascido na periferia, uma das poucas possibilidades de ascensão social no Brasil é virar jogador de futebol. Se o ídolo dele, se o cara que ele ouve sempre, nunca se preocupou com isso, nunca estudou, por que ele vai estudar? O garoto descarta de cara. Só que, dos milhares que sonham em virar profissional, uma centena, e olhe lá, consegue. E o resto? Na verdade, estamos estimulando a marginalização de boa parte da população. Porque os jogadores são referência em tudo neste País. Se moralizarmos o futebol, diminuirmos ou chegarmos perto da extinção da corrupção, da manipulação de resultado, vamos mexer em toda a sociedade, pois o futebol é o que unifica o Brasil. Por que um País tão díspar culturalmente nunca teve nenhuma manifestação séria separatista? Como é que o nordestino conversa com o gaúcho? Ele tem de ter uma linguagem uniforme. Eu acho que uma das linguagens mais presentes, mais importantes, é a do futebol. É a única bandeira nacional. Temos de usar esse meio, esse mecanismo, como fator predominante de mudança.

CC: O que acha que deveria ser feito de imediato?

Sócrates:
Primeiro, ter maior participação e controle do Estado. Acho um absurdo a manutenção de uma estrutura que não presta contas ao poder estatal e que mexe com tantos símbolos, como a bandeira, o hino, as cores do País. Nada se move pelo interesse nacional. Diga-me um único gesto de promoção da atividade física, do esporte, patrocinado pela Confederação Brasileira de Futebol, a não ser aquelas enganações de campeonatos de favela? Uma entidade que fatura 80 milhões de dólares por ano e investe 100 mil reais.


CC: O Brasil terá algum ganho com a Copa de 2014?

Sócrates:
Não acredito. Teremos uma festinha de um mês, depois vai sobrar um monte de trambolho que ninguém saberá como manter. Veja o que aconteceu com as instalações do Pan. O estádio Engenhão, que custou mais de 300 milhões de reais, foi alugado ao Botafogo por 29 mil. E o pior: a população, que deveria ser a maior beneficiária, não usa. No caso da Copa de 2014, multiplique por dez as parafernálias do Pan. Vai ser isso. E com dinheiro nosso, não tenha dúvida. Até agora ninguém mexeu uma palha para organizar o evento. Quando chegar 2011, 2012, farão tudo de última hora. Aí fica sem controle, né, de um jeito bem conveniente (risos). Países sérios estariam com tudo planejado. E ainda querem fazer uma Olimpíada aqui.

CC: O Michel Platini (ex-jogador, atual presidente da Uefa) propôs limitar o número de jogadores estrangeiros em times europeus a cinco por jogo. O que pensa a respeito?

Sócrates:
É absurdo um órgão esportivo tentar meter o bico em decisões que cabem a países. Se a Inglaterra decidir não ter nenhum inglês em campo, o problema é da Inglaterra, é política de Estado. O que a Uefa tem a ver com isso? É muita pretensão.

CC: Você gosta do trabalho do Dunga à frente da seleção?

Sócrates:
Não vejo nada de mais. Acho incoerente, por exemplo, ele dizer que se preocupa com as Olimpíadas, mas a preparação ser tão ruim, quase nula, como tem acontecido.

CC: O Dunga é mais um técnico linha-dura, dentro da tradição autoritária do futebol e do Brasil, não?

Sócrates:
Sim. No Brasil, os técnicos promovem a política estrutural dos clubes. Em geral, chega, manda dez embora, contrata outros dez, vai embora em pouco tempo e quem fica com o prejuízo é o time. Como se permite que isso aconteça? Por que toda a estrutura ligada ao futebol é mal construída, não há ninguém comprometido pensando a longo prazo. Veja o Alex Ferguson (treinador do Manchester United). Ele não é um simples técnico. É um cara do clube, está ali há 30, 40 anos. Está mais para um gestor que também faz as vezes de treinador. Não há nada parecido no Brasil. O cara fica um ano no clube, recebe uma proposta melhor e tchau. Como é que vai promover a política de uma instituição com a qual não está comprometido? Por outro lado, como alguém vai se comprometer se não tem estabilidade? No fundo, o gestor tem de ser tratado como sócio.

CC: A má-formação dos atletas leva a um gosto por técnicos autoritários? Apreciam o “professor”, o “comandante”...

Sócrates:
Há muitos jogadores que gostam disso, pois, quanto mais protegidos, mais besteiras podem fazer. Melhor um ditador do que alguém que dê liberdade. É aquela história: o que o cara vai fazer com a liberdade? A idéia de Democracia Corintiana era dar responsabilidade a todo mundo. Liberdade com responsabilidade, virar gente, homem, cidadão. Alguém imagina um cirurgião cardíaco dormir no hospital para operar no dia seguinte? Por que é preciso a concentração no futebol? É uma relação arcaica. Por exemplo: por que os clubes não fazem contratos com jogadores e treinadores relacionados a resultados? Em vez de altos salários fixos, bônus, cotas. Mas aí os caras pegam um moleque e pagam alto. O sujeito tem 10 anos e já ganha 60 contos por mês (risos). Passa a receber sem a necessidade de produzir à altura, de forma a justificar o ganho. O cara sai da base para o topo da pirâmide em um piscar de olhos sem produzir nada. É absurdo, cria-se um musgo social.

CC: O Brasil um dia vai aproveitar a constante safra de jogadores para tornar o futebol um negócio de sucesso aqui?

Sócrates:
Como quase tudo no Brasil, no futebol se vende commodity. Não nos preocupamos em industrializar. Tem produto mais importante no futebol do planeta do que o jogador brasileiro? A gente tem mania de vender o artista e não a arte dele, o que é burrice. Vende cacau e compra chocolate. Mandamos o jogador para a Itália, a Espanha, a Inglaterra e depois compramos a transmissão televisiva desses campeonatos. É o que dá a falta de gestores, de pessoal comprometido com o negócio. Alguém competente mataria a pau. Vou dar um exemplo familiar de como funcionam as coisas no futebol. Meu filho Gustavo é advogado e atua na área de futebol. Uma vez ele escreveu um artigo na imprensa sobre o caso da transferência do (lateral) Rogério do Palmeiras para o Corinthians. Era o início da Lei Pelé e, se quisesse, o Palmeiras não pagaria nada, mas a diretoria perdeu o prazo de contestar o contrato. O Palmeiras decidiu processar o Gustavo por causa desse artigo. E o que aconteceu? Eles perderam o prazo para dar prosseguimento ao processo contra o meu filho (risos).

Fonte: Revista "Carta Capital" de 13.06.2008