PF disponibiliza antecedentes criminais pela internet
A Polícia Federal anunciou, nesta quinta-feira (12/6), a disponibilização, pela internet, da emissão de certidão de antecedentes criminais. Quem acessar a página www.dpf.gov.br, deve clicar no link “Certidão de Antecedentes Criminais” e preencher o formulário. Entre os dados solicitados, estão: nome, filiação, data de nascimento, naturalidade, número da carteira de identidade, número do passaporte (não obrigatório) e o CPF.
O órgão ou instituição que determinarem a apresentação da certidão, para validá-la, deverão acessar o site da PF e escolher a opção “Validar Certidão”. Neste caso, são necessários o número da Certidão, data e horário da emissão, que se encontram no próprio documento.
Caso ocorra recusa do sistema em emitir a certidão por motivo de homônimos, o requerente deverá dirigir-se até uma unidade da Polícia Federal tentar obter o documento.
A certidão emitida pela internet, para ser aceita pelos órgãos responsáveis pela regularização de brasileiros no exterior, deverá ser validada em qualquer Cartório de Notas.
Revista Consultor Jurídico, 12 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
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quarta-feira, 11 de junho de 2008
Íntegra da Carta de Demissão de Marina Silva


14/05/2008
"Caro presidente Lula,
Venho, por meio desta, comunicar minha decisão em caráter pessoal e irrevogável, de deixar a honrosa função de Ministra de Estado do Meio Ambiente, a mim confiada por V. Excia desde janeiro de 2003. Esta difícil decisão, Sr. Presidente, decorre das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal.
Quero agradecer a oportunidade de ter feito parte de sua equipe. Nesse período de quase cinco anos e meio esforcei-me para concretizar sua recomendação inicial de fazer da política ambiental uma política de governo, quebrando o tradicional isolamento da área.
Agradeço também o apoio decisivo, por meio de atitudes corajosas e emblemáticas, a exemplo de quando, em 2003, V. Excia chamou a si a responsabilidade sobre as ações de combate ao desmatamento na Amazônia, ao criar grupo de trabalho composto por 13 ministérios e coordenado pela Casa Civil. Esse espaço de transversalidade de governo, vital para a existência de uma verdadeira política ambiental, deu início à série de ações que apontou o rumo da mudança que o País exigia de nós, ou seja, fazer da conservação ambiental o eixo de uma agenda de desenvolvimento cuja implementação é hoje o maior desafio global.
Fizemos muito: a criação de quase 24 milhões de hectares de novas áreas de conservação federais, a definição de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade em todos os nossos biomas, a aprovação do Plano Nacional de Recursos Hídricos, do novo Programa Nacional de Florestas, do Plano Nacional de Combate à desertificação e temos em curso o Plano Nacional de Mudanças Climáticas.
Reestruturamos o Ministério do Meio Ambiente, com a criação da Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro; com melhoria salarial e realização de concursos públicos que deram estabilidade e qualidade à equipe. Com a completa reestruturação das equipes de licenciamento e o aperfeiçoamento técnico e gerencial do processo. Abrimos debate amplo sobre as políticas socioambientais, por meio da revitalização e criação de espaços de controle social e das conferências nacionais de Meio Ambiente, efetivando a participação social na elaboração e implementação dos programas que executamos.
Em negociações junto ao Congresso Nacional ou em decretos, estabelecemos ou encaminhamos marcos regulatórios importantes, a exemplo da Lei de Gestão de Florestas Públicas, da criação da área sob limitação administrativa provisória, da regulamentação do art. 23 da Constituição, da Política Nacional de Resíduos Sólidos, da Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. Contribuímos decisivamente para a aprovação da Lei da Mata Atlântica.
Em dezembro último, com a edição do Decreto que cria instrumentos poderosos para o combate ao desmatamento ilegal e com a Resolução do Conselho Monetário Nacional, que vincula o crédito agropecuário à comprovação da regularidade ambiental e fundiária, alcançamos um patamar histórico na luta para garantir à Amazônia exploração equilibrada e sustentável. É esse nosso maior desafio. O que se fizer da Amazônia será, ouso dizer, o padrão de convivência futura da humanidade com os recursos naturais, a diversidade cultural e o desejo de crescimento. Sua importância extrapola os cuidados merecidos pela região em si, e revela potencial de gerar alternativas de resposta inovadora ao desafio de integrar as dimensões social, econômica e ambiental do desenvolvimento.
Hoje, as medidas adotadas tornam claro e irreversível o caminho de fazer da política socioambiental e da economia uma única agenda, capaz de posicionar o Brasil de maneira consistente para operar as mudanças profundas que, cada vez mais, apontam o desenvolvimento sustentável como a opção inexorável de todas as nações.
Durante essa trajetória, V. Excia é testemunha das crescentes resistências encontradas por nossa equipe junto a setores importantes do governo e da sociedade. Ao mesmo tempo, de outros setores tivemos parceria e solidariedade. Em muitos momentos, só conseguimos avançar devido ao seu acolhimento direto e pessoal. No entanto, as difíceis tarefas que o governo ainda tem frente sinalizam que é necessária a reconstrução da sustentação política para a agenda ambiental.
Tenho o sentimento de estar fechando o ciclo cujos resultados foram significativos, apesar das dificuldades. Entendo que a melhor maneira de continuar contribuindo com a sociedade brasileira e o governo é buscando, no Congresso Nacional, o apoio político fundamental para a consolidação de tudo o que conseguimos construir e para a continuidade da implementação da política ambiental.
Nosso trabalho à frente do MMA incorporou conquistas de gestões anteriores e procurou dar continuidade àquelas políticas que apontavam para a opção de desenvolvimento sustentável. Certamente, os próximos dirigentes farão o mesmo com a contribuição deixada por esta gestão. Deixo seu governo com a consciência tranqüila e certa de, nesses anos de profícuo relacionamento, temos algo de relevante para o Brasil.
Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.
Marina Silva"
Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 14.06.2008
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Pondo a Amazônia em seu devido lugar
Wanderley Guilherme dos Santos
30/05/2008 - Jornal Valor Econômico
A Amazônia é matéria de soberania. Em segundo lugar, apresenta desafio à promoção de um desenvolvimento ecologicamente sustentável. Em último caso, trata-se de integrá-la a qualquer custo imediato. Integrar a Amazônia e o Centro-Oeste. Depõe a história que a sustentabilidade é recuperável - até animais extintos são trazidos à vida pela reprodução do DNA. A perda de território nunca foi. Não existem dois mapas geográficos iguais entre si. Quero dizer, mapas históricos ou contemporâneos. Sem dúvida, fauna, flora e epiderme do planeta têm sido profundamente sacrificadas pela intervenção humana, século após século, mas o traçado de fronteiras e o poderio dos países são igualmente mortais. Nenhum império resiste ao tempo (lembrar o império soviético), mas pode durar bastante, vide o império romano.
A propósito, os Estados Unidos não param de expandir-se ao Norte, ao Sul, a Oeste e, pelo estacionamento de tropas, também a Leste, tendo colaborado para modificações geográficas em, pelo menos, três continentes. Nem sempre pelo convencimento ideológico. Na contabilidade de Robert Kagan, estrategista da Carnegie Endowment for International Peace, "entre 1989 e 2001, os Estados Unidos intervieram no exterior, pela força, mais freqüentemente do que em qualquer outro período de sua história - com média de uma nova ação militar significativa a cada 16 meses - e muito mais do que qualquer outro poder no mesmo espaço de tempo". ("The Return of History and the End of Dreams", 2008, pág. 50).
Francis Fukuyama, depois de analisar as crises internacionais que ocorreram no mesmo período, em "State-Building - Governance and World Order in the 21st Century" (2004), aconselha aos americanos que exportem, por assim dizer, estruturas estatais de preferência a instituições políticas democráticas. Segundo Kagan, o mundo não deve alimentar dúvidas sobre o provável comportamento dos Estados Unidos no desenrolar do atual conflito entre as democracias e o que ele designa por autocracias.
Já em "Paradise and Power" (New York, 2004), ele havia advertido a Europa de que os Estados Unidos estavam se preparando para assumir explicitamente seu papel de império e, conseqüentemente, de vir a agir cada vez mais autonomamente, em estrita consulta a seus interesses materiais e estratégicos. Os conceitos de ação legítima e de ação justa estão abalados na recapitulação européia, como se sabe, desde o recente bombardeamento e posterior invasão americana do Iraque. Antes tarde do que nunca, e algum dia o confisco de território mexicano, pelo menos, será devidamente anotado nos anais.
Justiça e legitimidade nas relações internacionais estão abaladas tal como abaladas estão as regiões da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro. Dormentes até há cerca de 30 anos, pertenciam ao Brasil cartográfico, não ao país econômico. Hoje, embora ainda de densidade populacional rarefeita, dispõem de mais de 28 milhões de habitantes, correspondentes a 15% da população total do Brasil, com crescimento econômico a taxas asiáticas. Há 50 anos mal superavam os 7% da população e, economicamente, não passavam de um problema. A transformação de escala foi muito rápida: o crescimento populacional da Região Norte, entre 1950 e 1991, foi de 456% e no Centro-Oeste atingiu a taxa de 442%. O significado desses valores pode ser avaliado pela média nacional de 183%, entre os mesmos anos.
Deslocamentos populacionais de grande porte para as cidades provocam desconforto social, perda de referência axiológica e ansiedade. Acoplados à mobilização estimulada pelos partidos políticos, as novas tensões se refletem nos conflitos tornados mais agudos e na descoberta dos canais eleitorais como tradutores de demandas. No Norte, dentro dos mesmos parâmetros temporais, o eleitorado aumentou em 1426% e no Centro-Oeste, em 1.650%. No Brasil, o crescimento foi de 727%. Hoje, as duas regiões deixaram de ser anotações cartográficas e participam do universo jurídico, político e econômico da nação.
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Estado brasileiro deixa de cumprir suas mínimas obrigações constitucionais em largos trechos do território
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A experiência com formas antiquadas de acumulação material recomenda cautela na incorporação de novos segmentos do território à economia ativa. A audiência imediatamente interessada nesse processo é a própria população brasileira, atenta para os custos intergeracionais do aproveitamento dos recursos naturais e de suas conseqüências. Estão aí os exemplos das grandes potências, em particular os Estados Unidos, cujo histórico de ocupação predatória do planeta deve ser permanentemente lembrado, a fim de que se evite sua repetição. Nem potências emergentes, nomeadamente a Índia e a China, estão isentas de responsabilidade quanto ao legado que destinarão às gerações futuras. O cuidado dos governos atuais com as respectivas próximas gerações bem pode ser uma das vacinas contra o cultivo de ambições vicinais. Ou mesmo remotas.
O Estado brasileiro tem, portanto, essencial e prioritária responsabilidade com a preservação da integridade do território nacional, isto é, em sua extensão e qualidade. Trata-se de cuidar para que os futuros brasileiros se encontrem amparados por uma reserva de recursos no mínimo equivalente àquela de que a geração atual dispõe. Comprometer essa possibilidade significa incorrer em desídia histórica. No caso, preservar é uma homenagem ao futuro, não ao passado. Não está sendo uma tarefa de somenos.
Inadequado às suas funções presentes, o Estado brasileiro deixa de cumprir suas mínimas obrigações constitucionais - garantia universal de direitos - em largos trechos do território. Nas zonas urbanas, são as áreas controladas pelo tráfico nas quais a tentativa de introduzir ordem pública produz justamente o oposto: desordem e conflitos. Nas regiões de fronteira física ou econômica - caso do Norte e do Centro-Oeste - a apropriação do mundo material tem se dado conforme as leis do mundo natural - cada um por si - sem que o Estado exerça algum poder preventivo e sem que as instituições judiciárias, em ação posterior, funcionem livres da coação local. A ordem legal aparece como invasora do espaço idílico da infernal competição sem regras. Menos do que ausência, verifica-se a insuficiência da capacidade estatal de instituir o solo constitucional da convivência.
Vem a calhar, portanto, o início da retomada pelo Estado da soberania perdida nas regiões do Norte e do Centro-Oeste para a indústria predatória, o contrabando e a apropriação indébita. Todos precisam se convencer de que a Amazônia que nos cabe, assim como o Centro-Oeste, não pertence aos aventureiros do capitalismo nascente, nem às ONGs, nem aos movimentos ecológicos, nem às missões religiosas. O Norte não pode se converter em santuário, objeto de romarias, turismo e reverência como os altares nas estradas da Grécia clássica.
A Amazônia brasileira corporifica excepcional recurso a ser mobilizado e preservado em benefício das futuras gerações de nacionais. Depois de aproximadamente 30 anos de financiamento de pesquisas, fundações de todos os quadrantes e grupos de interesse organizados conseguiram impor, como de urgência, uma agenda de preconceito racialista e de desespero ambiental, causas de solidária aderência à opinião pública. Separe-se o joio do trigo, respeitem-se as demandas legítimas, e que se dê um chega pra lá aos descalabros do cerco ideológico.
Wanderley Guilherme dos Santos, membro da Academia Brasileira de Ciências, escreve quinzenalmente neste espaço
Email: leex@candidomendes.edu.br
Este artigo reflete as opiniões do autor e não do "Valor Econômico". O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
30/05/2008 - Jornal Valor Econômico
A Amazônia é matéria de soberania. Em segundo lugar, apresenta desafio à promoção de um desenvolvimento ecologicamente sustentável. Em último caso, trata-se de integrá-la a qualquer custo imediato. Integrar a Amazônia e o Centro-Oeste. Depõe a história que a sustentabilidade é recuperável - até animais extintos são trazidos à vida pela reprodução do DNA. A perda de território nunca foi. Não existem dois mapas geográficos iguais entre si. Quero dizer, mapas históricos ou contemporâneos. Sem dúvida, fauna, flora e epiderme do planeta têm sido profundamente sacrificadas pela intervenção humana, século após século, mas o traçado de fronteiras e o poderio dos países são igualmente mortais. Nenhum império resiste ao tempo (lembrar o império soviético), mas pode durar bastante, vide o império romano.
A propósito, os Estados Unidos não param de expandir-se ao Norte, ao Sul, a Oeste e, pelo estacionamento de tropas, também a Leste, tendo colaborado para modificações geográficas em, pelo menos, três continentes. Nem sempre pelo convencimento ideológico. Na contabilidade de Robert Kagan, estrategista da Carnegie Endowment for International Peace, "entre 1989 e 2001, os Estados Unidos intervieram no exterior, pela força, mais freqüentemente do que em qualquer outro período de sua história - com média de uma nova ação militar significativa a cada 16 meses - e muito mais do que qualquer outro poder no mesmo espaço de tempo". ("The Return of History and the End of Dreams", 2008, pág. 50).
Francis Fukuyama, depois de analisar as crises internacionais que ocorreram no mesmo período, em "State-Building - Governance and World Order in the 21st Century" (2004), aconselha aos americanos que exportem, por assim dizer, estruturas estatais de preferência a instituições políticas democráticas. Segundo Kagan, o mundo não deve alimentar dúvidas sobre o provável comportamento dos Estados Unidos no desenrolar do atual conflito entre as democracias e o que ele designa por autocracias.
Já em "Paradise and Power" (New York, 2004), ele havia advertido a Europa de que os Estados Unidos estavam se preparando para assumir explicitamente seu papel de império e, conseqüentemente, de vir a agir cada vez mais autonomamente, em estrita consulta a seus interesses materiais e estratégicos. Os conceitos de ação legítima e de ação justa estão abalados na recapitulação européia, como se sabe, desde o recente bombardeamento e posterior invasão americana do Iraque. Antes tarde do que nunca, e algum dia o confisco de território mexicano, pelo menos, será devidamente anotado nos anais.
Justiça e legitimidade nas relações internacionais estão abaladas tal como abaladas estão as regiões da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro. Dormentes até há cerca de 30 anos, pertenciam ao Brasil cartográfico, não ao país econômico. Hoje, embora ainda de densidade populacional rarefeita, dispõem de mais de 28 milhões de habitantes, correspondentes a 15% da população total do Brasil, com crescimento econômico a taxas asiáticas. Há 50 anos mal superavam os 7% da população e, economicamente, não passavam de um problema. A transformação de escala foi muito rápida: o crescimento populacional da Região Norte, entre 1950 e 1991, foi de 456% e no Centro-Oeste atingiu a taxa de 442%. O significado desses valores pode ser avaliado pela média nacional de 183%, entre os mesmos anos.
Deslocamentos populacionais de grande porte para as cidades provocam desconforto social, perda de referência axiológica e ansiedade. Acoplados à mobilização estimulada pelos partidos políticos, as novas tensões se refletem nos conflitos tornados mais agudos e na descoberta dos canais eleitorais como tradutores de demandas. No Norte, dentro dos mesmos parâmetros temporais, o eleitorado aumentou em 1426% e no Centro-Oeste, em 1.650%. No Brasil, o crescimento foi de 727%. Hoje, as duas regiões deixaram de ser anotações cartográficas e participam do universo jurídico, político e econômico da nação.
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Estado brasileiro deixa de cumprir suas mínimas obrigações constitucionais em largos trechos do território
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A experiência com formas antiquadas de acumulação material recomenda cautela na incorporação de novos segmentos do território à economia ativa. A audiência imediatamente interessada nesse processo é a própria população brasileira, atenta para os custos intergeracionais do aproveitamento dos recursos naturais e de suas conseqüências. Estão aí os exemplos das grandes potências, em particular os Estados Unidos, cujo histórico de ocupação predatória do planeta deve ser permanentemente lembrado, a fim de que se evite sua repetição. Nem potências emergentes, nomeadamente a Índia e a China, estão isentas de responsabilidade quanto ao legado que destinarão às gerações futuras. O cuidado dos governos atuais com as respectivas próximas gerações bem pode ser uma das vacinas contra o cultivo de ambições vicinais. Ou mesmo remotas.
O Estado brasileiro tem, portanto, essencial e prioritária responsabilidade com a preservação da integridade do território nacional, isto é, em sua extensão e qualidade. Trata-se de cuidar para que os futuros brasileiros se encontrem amparados por uma reserva de recursos no mínimo equivalente àquela de que a geração atual dispõe. Comprometer essa possibilidade significa incorrer em desídia histórica. No caso, preservar é uma homenagem ao futuro, não ao passado. Não está sendo uma tarefa de somenos.
Inadequado às suas funções presentes, o Estado brasileiro deixa de cumprir suas mínimas obrigações constitucionais - garantia universal de direitos - em largos trechos do território. Nas zonas urbanas, são as áreas controladas pelo tráfico nas quais a tentativa de introduzir ordem pública produz justamente o oposto: desordem e conflitos. Nas regiões de fronteira física ou econômica - caso do Norte e do Centro-Oeste - a apropriação do mundo material tem se dado conforme as leis do mundo natural - cada um por si - sem que o Estado exerça algum poder preventivo e sem que as instituições judiciárias, em ação posterior, funcionem livres da coação local. A ordem legal aparece como invasora do espaço idílico da infernal competição sem regras. Menos do que ausência, verifica-se a insuficiência da capacidade estatal de instituir o solo constitucional da convivência.
Vem a calhar, portanto, o início da retomada pelo Estado da soberania perdida nas regiões do Norte e do Centro-Oeste para a indústria predatória, o contrabando e a apropriação indébita. Todos precisam se convencer de que a Amazônia que nos cabe, assim como o Centro-Oeste, não pertence aos aventureiros do capitalismo nascente, nem às ONGs, nem aos movimentos ecológicos, nem às missões religiosas. O Norte não pode se converter em santuário, objeto de romarias, turismo e reverência como os altares nas estradas da Grécia clássica.
A Amazônia brasileira corporifica excepcional recurso a ser mobilizado e preservado em benefício das futuras gerações de nacionais. Depois de aproximadamente 30 anos de financiamento de pesquisas, fundações de todos os quadrantes e grupos de interesse organizados conseguiram impor, como de urgência, uma agenda de preconceito racialista e de desespero ambiental, causas de solidária aderência à opinião pública. Separe-se o joio do trigo, respeitem-se as demandas legítimas, e que se dê um chega pra lá aos descalabros do cerco ideológico.
Wanderley Guilherme dos Santos, membro da Academia Brasileira de Ciências, escreve quinzenalmente neste espaço
Email: leex@candidomendes.edu.br
Este artigo reflete as opiniões do autor e não do "Valor Econômico". O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
FELA KUTI


Fela Anikulapo Ransome Kuti (Abeokuta, 1938 — 1997) foi um músico nigeriano.
Biografia
Fela Kuti nasceu em Abeokuta, no estado de Ogun, na Nigéria em uma familía de classe média. Sua mãe, Funmilayo Ransome-Kuti, foi uma feminista atuante no movimento anti-colonial, e seu pai, Reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, um pastor protestante e diretor de escola, foi o primeiro presidente da União Nigeriana de Professores. Seus irmãos Dr. Beko Ransome-Kuti e Olikoye Ransome-Kuti, eram ambos conhecidos na Nigéria.
Ele mudou-se para Londres em 1958 com a intenção de estudar Medicina, mas acabou decidindo estudar música no Trinity College of Music. Lá, ele formou a banda Koola Lobitos, tocando um estilo de música que chamaria posteriormente de Afrobeat. O estilo era uma mistura do Jazz americano com o Highlife da África Ocidental. Em 196, Fela casou-se com sua primeira esposa, Remilekum (Remi) Taylor com quem ele teria três filhos (Femi, Yeni e Sola). Em 1963 Fela voltou para a Nigéria, reformou o Koola Lobitos e trabalhou como produtor de rádio para a Empresa Nigeriana de Transmissão . Em 1969 Fela levou a banda para os Estados Unidos. Lá, Fela descobriu o movimento Black Power através de Sandra Smith (hoje Isidore), uma partidária do Panteras Negras, que influenciaria fortemente sua música e suas visões politícas e renomou a banda para "Nigeria 70". Logo, o Serviço de Naturalização e Imigração foi informado por um empresário que Fela e sua banda estavam nos EUA sem licença de trabalho. A banda então realizou uma rápida sessão de gravação em Los Angeles, que mais tarde viria a ser lançado como "The '69 Los Angeles Sessions".
Fela e sua banda, renomeada para "Africa '70" retornaram para a Nigéria. Ele então formou a República Kalakuta, uma comuna, um estúdio de gravação e uma casa para muitos conectados à banda a qual mais tarde ele declarou independente do Estado da Nigéria. Fela montou uma boate no Empire Hotel, chamado de Afro-Spot e depois Afrika Shrine, onde ele cantava regularmente. Fela também mudou o seu nome do meio para "Anikulapo" (que significa "aquele que carrega a morte no bolso"), declarando que o seu nome do meio original, Ransome, era um nome de escravo. As gravações continuaram e a música se tornou mais motivada politicamente. A música de Fela se tornou bastante popular entre os cidadãos nigerianos e africanos em geral. De fato, ele decidiu cantar em um Pidgin baseado no inglês de forma que sua música pudesse ser apreciada por indivíduos de toda a África, onde as línguas faladas locais são muito diversas e numerosas. À medida que a música de Fela tinha se tornado popular na Nigéria e em todo lugar, ela também era bastante impopular entre o governo no poder e ataques à República Kalakuta eram freqüentes. Em 1974, a polícia chegou com um mandado de busca e um cigarro de cannabis, o qual tinha a intenção de ocultar em posse de Fela. Ele se deu conta disso e engoliu o cigarro. Em resposta, a polícia o levou em custódia e esperou para examinar suas fezes. Fela conseguiu a ajuda de seus companheiros presos e entregou à polícia as fezes de outra pessoa, Fela foi assim liberado. Ele então relatou o incidente em seu lançamento Expensive Shit.
Em 1977 Fela e a Afrika 70 lançaram o sucesso Zombie, um ataque mordaz aos soldados nigerianos, usando a metáfora "zumbi" para descrever os métodos das forças armadas nigerianas. O álbum foi um sucesso esmagador entre o público e enfureceu o governo, dando início a um cruel ataque à República Kalakuta, durante o qual mil soldados atacaram a comuna. Fela foi severamente espancado, e sua mãe idosa foi arremessada de uma janela, causando ferimentos fatais. A República Kalakuta foi incendiada e o estúdio, instrumentos e gravações originais de Fela foram destruídos. Fela afirmou que teria sido morto se não fosse pela intervenção de um oficial comandante quando estava sendo espancado. A resposta de Fela ao ataque foi enviar o caixão de sua mãe para o quartel principal em Lagos e escrever duas canções, "Coffin for Head of State" e "Unknown Soldier", referindo-se ao inquérito oficial que afirmou que a comuna foi destruída por um soldado desconhecido.
Fela e sua banda foram então morar no Crossroads Hotel, visto que a Shrine tinha sido destruída junto com sua comuna. Em 1978 Fela casou-se com vinte e sete mulheres, muitas das quais eram suas dançarinas e vocalistas, para marcar o aniversário do ataque na República Kalakuta. O ano foi marcado também por dois notórios espetáculos, o primeiro em Acra no qual ocorreram tumultos durante a música "Zombie" que levaram Fela a ser proibido de entrar em Gana. O segundo foi no Berlin Jazz Festival após o qual a maioria dos músicos de Fela o abandonou, devido a rumores de que Fela estava planejando utilizar a totalidade dos lucros para financiar sua campanha presidencial.
Apesar dos maciços retrocessos, Fela estava determinado a voltar. Ele formou seu próprio partido político, que chamou de Movimento do Povo . Em 1979 ele se candidatou a presidente nas primeiras eleições da Nigéria após mais de uma década mas sua candidatura foi recusada. À essa época, Fela criou uma nova banda chamada "Egypt 80" e continuou a gravar álbuns e viajar pelo país. Ele ainda enfureceu as autoridades políticas colocando os nomes do vice-presidente da ITT Moshood Abiola e do então General Olusegun Obasanjo ao final de um discurso político de 25 minutos sucesso de vendas intitulado "International Thief Thief".
Em 1984 ele foi novamente atacado pelo governo militar, que o prendeu sob uma dúbia acusação de lavagem de dinheiro. Seu caso foi acompanhado por vários grupos de direitos humanos e, após vinte anos, ele foi libertado pelo General Ibrahim Babangida. Ao ser liberto ele divorciou-se de suas doze esposas restantes, dizendo "Casamento traz ciúmes e egoísmo". Mais uma vez, Fela continuou a lançar álbuns com a Egypt 80, fez algumas turnês de sucesso no Estados Unidos e na Europa e também continuou politicamente ativo. Em 1986 Fela se apresentou no Giants Stadium em Nova Jérsei como parte do show "Conspiração da Esperança" da Anistia Internacional, junto com Bono, Carlos Santana e The Neville Brothers. Em 1989 Fela & Egypt 80 lançou o álbum antiapartheid "Beasts of No Nation" que exibe em sua capa o Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o primeiro-ministro da África do Sul P.W. Botha com caninos pingando sangue.
Sua produção de álbuns reduziu na década de 90 e ele enfim parou de lançar mais álbuns. A luta contra a corrupção militar na Nigéria esstava causando estragos, principalmente durante a ascenção do ditador Sani Abacha. Também estavam se espalhando rumores de que ele estava sofrendo de uma doença da qual se recusava a tratar. Em 3 de Agosto de 1997 Olikoye Ransome-Kuti, um já proeminente ativista contra a AIDS e anterior Ministro da Saúde, surpreendeu a nação anunciando a morte de seu irmão mais novo um dia antes de Sarcoma de Kaposi causado por AIDS. (O irmão mais novo deles, Beki, estava preso no momento pelas mãos de Abacha por atividade política). Mais de um milhão de pessoas compareceram ao funeral de Fela no local do antigo recinto da Shrine. Uma nova Africa Shrine foi aberta depois da morte de Fela em uma diferente seção de Lagos sob a supervisão do seu filho Femi Kuti.
Música
O estilo musical de Fela Kuti é chamado Afrobeat, o que essencialmente é uma fusão de jazz, funk e cantos tradicionais africanos. Possui percussão de estilo africano, vocais e estrutura musical que passa por jazz e seções de funky horn. O "endless groove" também é usado, com um ritmo básico com baterias, muted guitar e baixo que são repetidos durante a música. Essa é uma técnica comum na África e em estilos musicais influenciados por ela, como o funk e o hip-hop. Alguns elementos presentes nas musicas de Fela são chamados de call-and-response (chamada e resposta) com o coro e alguns simples mas significativos rifes. A música de Fela quase sempre tem mais do que dez minutos, alguns atingindo a marca de vinte ou trinta minutos. Essa é uma das muitas razões que sua música nunca atingiu um grau de popularidade substancial fora da África. Sua música era mais tocada em línguas nigerianas, além de algumas músicas tocadas em ((Yoruba)). Os principais instrumentos de Fela, era o saxofone e o teclado, mas ele também tocava trompete, guitarra e ocasionalmente solos de bateria. Fela se recusava a tocar musicas novamente após já tê-la gravado, o que por sua vez retardos sua popularidade fora d África. Fela era conhecido por sua performance, e seus concertos eram tidos como bárbaros e selvagens. Ele referencia sua atuação como um jogo espiritual underground.
Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Fela_Kuti"
A Música é Arma - Parte 1
http://br.youtube.com/watch?v=oMqUpODyBk8
A Música é Arma - Parte 2
http://br.youtube.com/watch?v=V0Zv-FtodZA&feature=related
A Música é Arma - Parte 3
http://br.youtube.com/watch?v=p0_zozQsAeE&feature=related
A Música é Arma - Parte 4
http://br.youtube.com/watch?v=fSMPxL98xYg&feature=related
A Música é Arma - Parte 5
http://br.youtube.com/watch?v=IKndra7s69w&feature=related
A Música é Arma - Parte 6
http://br.youtube.com/watch?v=orLMLzccyTY&feature=related
Wagner Moura e o "Pânico Na TV"
Segue a carta do ator Wagner Moura sobre o caso com o Pânico.
'Meleca no ator' - leia o artigo indignado de Wagner Moura após 'cagada' de repórter
Publicada em 29/05/2008 às 11h55m
Wagner Moura*
Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo 'que coisa horrível' (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.
' O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice '
O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.
' Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência '
Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.
No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a 'cagada' que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?
WAGNER MOURA é ator
'Meleca no ator' - leia o artigo indignado de Wagner Moura após 'cagada' de repórter
Publicada em 29/05/2008 às 11h55m
Wagner Moura*
Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo 'que coisa horrível' (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.
' O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice '
O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.
' Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência '
Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.
No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a 'cagada' que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?
WAGNER MOURA é ator
quarta-feira, 21 de maio de 2008
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