sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Tentação de Santo Antônio" de Hieronymus Bosch - 1505/1506



Esse artista extraordinário se destaca entre os magníficos pintores da tradição flamenga por seu estilo único, inteiramente livre e por um simbolismo vivo, curiosíssimo, inconfundível e sem paralelo até nossos dias. Maravilhando e aterrorizando, Bosch expressou um forte pessimismo e as ansiedades de seu tempo, marcado por muitas revoltas políticas e distúrbios sociais.

Sua vida, tão enigmática quanto algumas de suas obras, foi marcada por um fato raro até o século 20: a fama em vida. Sua obra, quase toda marcada por seres fantásticos e eivadas de cenas demoníacas, é pequena mas continua recebendo a mesma atenção desde que foi criada. Hieronimus Bosch não sai de moda.

Para compreendermos melhor a importância e a personalidade de Bosch, devemos nos lembrar que ele viveu entre 1450 e 1516; Leonardo da Vinci entre 1452 e 1519 e Michelangelo entre 1475 e 1564. O que isso quer dizer? Que os três gênios estavam em atividade na mesma época. O trabalho de Bosch não tem a mais mínima relação com a obra dos dois italianos e não há nenhuma evidência de que o holandês soubesse da existência dos outros dois. O período em que os três viveram foi farto em acontecimentos que levaram a uma mudança de atitude em relação à Igreja. O protestantismo começou a surgir graças a Martin Luther lá pelo fim da vida de Bosch, mas os motivos e fatos que levariam a isso estavam em gestação há algum tempo.

As tentações sobrenaturais que Santo Antonio sofreu durante seu retiro no deserto egípcio foram relatadas pela primeira vez por Atanásio de Alexandria e desde então são tema recorrente na literatura e nas artes plásticas. Hieronimus Bosch fez desse tema um tríptico que é uma de suas obras mais célebres. Nela, através de símbolos, o artista nos relata os tormentos espirituais e mentais que o santo enfrentou. Em nenhuma de suas outras obras Bosch nos mostrou as vicissitudes da vida espiritual mais vividamente do que nesse tríptico. Nos painéis central e esquerdo, o pintor nos apresenta o horror do pecado e dos desatinos, um retrato pavoroso do Inferno e imagens do sofrimento do Cristo; no painel direito, Bosch retrata o santo firme em sua resistência às tentações do Mundo, da Carne e do Diabo. Numa era quando se acreditava piamente no Céu e no Inferno, e na iminente aparição do Anticristo, a postura serena de santo Antonio, o Eremita, nos olhando de dentro de sua capela assombrada, com certeza oferecia esperança e confiança na fé.

A Tentação de Santo Antonio, óleo sobre painéis de madeira. O central mede 131,5 x 119cm e os laterais 131.5 x 53 cm.

Acervo Museu de Arte Antiga de Lisboa, Portugal


Fontes:

www.wga.hu/frames-e.html?/html/b/bosch/index.html

www.mnarteantiga-ipmuseus.pt

Biografia



O seu nome verdadeiro era Jheronimus (ou Jeroen) van Aken. Ele assinou algumas das suas peças como Bosch (AFI /bɔs/), derivado da sua terra natal, 's-Hertogenbosch. Em Espanha é também conhecido como El Bosco.

Sabe-se muito pouco sobre a sua vida. A não existência de documentos comprovativos de o pintor ter trabalhado fora de Hertogenbosh levam a que se pense que Bosch tenha vivido sempre na sua cidade natal. Aí se terá iniciado nas lides da pintura na oficina do pai (ou de um tio), que também era pintor.

Foi especulado, ainda que sem provas concretas, que o pintor terá pertencido a uma (das muitas) seitas que na época se dedicavam às ciências ocultas. Aí teria adquirido inúmeros conhecimentos sobre os sonhos e a alquimia, tendo-se dedicado profundamente a esta última. Por essa razão, Bosch teria sido perseguido pela Inquisição. Sua obra também sofreu a influência dos rumores do Apocalipse, que surgiram perto do ano de 1500.

Existem registos de que em 1504 Filipe o Belo da Borgonha encomendou a Bosch um altar que deveria representar o Juízo final, o Céu e o Inferno. A obra, atualmente perdida (sem unanimidade julga-se que um fragmento da obra corresponde a um painel em Munique), valeu ao pintor o reconhecimento e várias encomendas posteriores. Os primeiros críticos de Bosch conhecidos foram os espanhóis Filipe de Guevara e Pedro de Singuenza. Por outro lado, a grande abundância de pinturas de Bosch na Espanha é explicada pelo fato de Filipe II de Espanha ter colecionado avidamente as obras do pintor.

Bosch é considerado o primeiro artista fantástico.

Obra

Atualmente apenas se conservam cerca de 40 originais seus, dispersos na sua maioria por museus da Europa e Estados Unidos da América. Dentre estes, a coleção do Museu do Prado de Madri é considerada a melhor para estudar a sua obra, visto abrigar a maioria daquelas que são consideradas pelos críticos como as melhores obras do pintor.

As obras de Bosch demonstram que foi um observador minucioso bem como um refinado desenhador e colorista. O pintor utilizou estes dotes para criar uma série de composições fantásticas e diabólicas onde são apresentados, com um tom satírico e moralizante, os vícios, os pecados e os temores de ordem religiosa que afligiam o homem medieval. Exemplos destas obras são:

* O Carro de Feno - (Museu do Prado, Madrid)
* O Jardim das Delícias - (Museu do Prado, Madrid)
* O Juízo Final - (Akademie der Bildenden Künste, Viena)
* As Tentações de Santo Antão - (Museu de Arte de São Paulo, São Paulo)
* As Tentações de Santo Antão - (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
* Os Sete Pecados Mortais - (Museu do Prado, Madrid)
* Navio dos Loucos ou A Nau dos Insensatos - (Museu do Louvre, Paris)
* Morte e o Avarento - (Galeria Nacional de Arte em Washington, DC.


A par destas obras, que imediatamente se associam ao pintor, há que referir que mais de metade das obras de Bosch abordam temas mais tradicionais como vidas de santos e cenas do nascimento, paixão e morte de Cristo.

O original tríptico As Tentações de Santo Antão esta incorporado no Museu Nacional de Arte Antiga a partir do antigo Palácio Real das Necessidades. Desconhecem-se as circunstâncias da chegada da obra a Portugal, não sendo certo que tenha feito parte da coleção do humanista Damião de Góis, como algumas vezes é referido.


Fonte: Wikipedia

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Marley para colecionadores

"Catch a Fire" é primeiro destaque da série "Deluxe Edition", finalmente no Brasil

08/01/2010

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

"Catch a Fire - Deluxe Edition" - Bob Marley & The Wailers


AP

Marley: álbum lançado em 1973 detém a unanimidade como marco da cultura popular

Distribuição: Universal / AAA

Clássicos reembalados em versão definitiva, lotada de extras, acréscimos gráficos e outros atrativos. Não é um formato novo nem incomum. Mas a Universal Music fez da série "Deluxe Edition" uma grife distinta - e decerto ajudou a definir uma tendência de mercado. Hoje, afinal, não há hit que passe sem sua versão "deluxe" ao fim de determinado período promocional.



A coleção já conta com quase 150 títulos. Circula há anos no mercado internacional. No Brasil, só agora chega o primeiro lote de lançamentos. São eles "Catch a Fire" (Bob Marley & The Wailers), "Arrival 30th Anniversary" (Abba), "Songs from the Big Chair" (Tears for Fears), "Eric Clapton" e "Frampton Comes Alive" (Peter Frampton). Todos serão significativos à evolução do pop; clássicos em seu respectivo nicho de fãs. "Catch a Fire", no entanto, detém a unanimidade como marco da cultura popular.

Lançado em 1973, o álbum foi o début dos Wailers por uma "major" internacional (a Island Records). Embora sucesso de crítica imediato, teve modesta repercussão na "Billboard", estacionando na 171ª posição. Em todo caso, prepararia o terreno para a revolução reggae que estava por vir - poucos meses depois sairia "Burnin" (1973), com os massivos hits "Get Up, Stand Up" e "I Shot the Sheriff".

Seria, então, apenas uma questão de tempo para "Stir it Up" ser redescoberta e perpetuada como standard. Obra-prima maior de "Catch a Fire", combinava moogs espaciais e sinuosos wah wahs a serviço da harmonia bubblegum - provada infalível na voz de Johnny Nash. Americano do Texas, Nash gravou-a um ano antes, entre suas andanças por Kingston. O sucesso do compacto decerto levaria os Wailers a trabalhar a faixa como peça central. Curiosamente, "Stir it Up" foge à orientação dominante, politizada, cuja melhor síntese será "Concrete Jungle"- com seu irresistível clavinete à moda "Superstition" (Stevie Wonder).

O disco bônus traz a versão original de "Catch a Fire", gravada na Jamaica, antes da associação com o produtor americano Chris Blackwell, portanto. Além do repertório integral, inclui duas faixas omitidas do mix definitivo ("All Day All Night" e "High Tide or low Tide"). A capa resgata o formato isqueiro Zippo que encartava o LP em sua primeira tiragem - substituída pelos contratempos técnicos de sua produção em massa. (LBH)


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 08.01.2010

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Relatório do plantio do dia 07/11//2009 do Projeto Agro Floresta no PNLO da UDV - Rodeador DF

Relatório do plantio do dia 07/11//2009 do Projeto Agro Floresta no PNLO da UDV - Rodeador DF

Pré Núcleo Luz do Oriente, um dos pólos das ações de reflorestamento do Projeto Agro Floresta criado UDV , realizou no dia 07 de Novembro de 2009, o plantio de aproximadamente 40 mudas de amora, pés 60 de mandioca , 50 pés de margaridão, 15 bananeiras, 30 mudas de mamão e varias sementes de espécies nativas do cerrado em uma área localizada nas proximidades de Rodeador, Brazlandia no PNLO da UDV . O presente trabalho teve como objetivo arborizar uma área degradada por meio da implantação de espécies florestais nativas, propiciando recomposição da paisagem.

O responsável técnico é Bruno Reis, que orientou a comunidade na abertura de covas, espaçamento,
A escolha de espécies utilizadas teve como objetivo a atração de fauna e a produção de frutos nativos para elaborar produtos à serem consumidos aos sócios e visitantes. A metodologia utilizada foi a de sistema agro-florestal.
Para que o projeto tenha continuidade e para que nenhum fator ambiental impeça o crescimento das mudas e atrapalhe o reflorestamento, monitoramentos e fiscalizações das mudas já plantadas através o acompanhamento do crescimento das mesmas serão realizados para assegurar a recomposição da vegetação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Por baixo dos panos

A nova geração de jovens iranianos ensaia um "liberou geral", apesar da opressão do regime

14.07.2009 - Texto por Pedro Doria - Fotos Amir Farshad Ebrahimi




"Onde é a festa?”, perguntou Pardis. A iluminação no jardim, quase nenhuma. Àquela hora da noite, não era possível enxergar mais o desnível do gramado. Sua amiga Sanaz não respondeu. Pardis tropeçava aqui e ali, enquanto seguia as batidas abafadas de música tecno à frente. Foi aí que viu a casinha da grande sauna. O vapor saía pelas frestas, assim como uns salpicos da luz forte no interior. Sanaz tirou seu véu e insistiu que a amiga fizesse o mesmo. Aí desfez-se do mantô muçulmano. “Estamos seguras”, ela disse. A mansão pertencia a um clérigo da alta cúpula do regime iraniano – mas ele não estava, nem sua mulher. Quem dava a festa era sua jovem filha. A Polícia Moral do país não teria coragem de dar uma batida ali.

Entre 2000 e 2007, Pardis Mahdavi havia viajado todo verão para o Irã, terra de seus pais. Quando pisou pela primeira vez em Teerã e conheceu as primas de sua idade, tinha 21 anos. Falava fluentemente a língua persa, embora com um ligeiro sotaque que todos logo identificavam como americano. A vida em Teerã não era nada como imaginara. Esperava encontrar na terra dos aiatolás um mundo repressor – encontrou entre as primas e suas amigas mais liberdade do que ela, criada na comunidade do exílio nos arredores de Los Angeles, tivera. Descobriu o que ela, nos anos seguintes, passou a chamar de Revolução Sexual Iraniana. Mas nada do que vira até ali a preparara para aquela festa em sua última visita.

Eram 40 ou mais jovens. No meio da grande sauna, uma piscina esvaziada. Calor, vapor. Ecstasy rolava e a batida do tecno ensurdecia. Pardis encostou-se numa parede. Buscou sua amiga, mas ela estava abraçada a três homens que a beijavam e despiam. Todos nus. Sexo – sexo de todas as formas praticado ali na sua frente. Ainda vestida, a jovem antropóloga sentia calor, suava, sua roupa encharcada. Achou melhor ir-se embora, deixou a sauna e de longe viu a casa grande. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água gelada. Um empregado a encontrou. Tinha a cara amarrada. “O que você quer?”, ele perguntou. “Um táxi”, ela disse. Ele pediu pelo telefone.



O choque entre o velho e o novo, o tradicional e o ocidentalizado no universo feminino iraniano



Revolução, jovens e sexo

Essa é a geração que, em junho, foi às ruas cobrar a fraude na reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, diante de aiatolás desesperados por algum controle. Dois terços dos iranianos têm menos de 30 anos, mais de 50% têm menos de 20. A idade média no país é 26. E eles querem liberdade.

Pardis foi criada como todos na comunidade iraniana que chegou aos EUA entre 1979 e 81, após a Revolução Islâmica que derrubou a ditadura laica do xá Reza Pahlavi. Ouviu por toda a vida que os fundamentalistas haviam tomado as rédeas e que não havia repressão maior do que aquela do Irã. E, no entanto, cresceu também ouvindo tudo o que uma “moça iraniana” não fazia. Adolescente, jamais pôde apresentar um namorado à família. Mas, apesar dos aiatolás, o país lá longe mudara enquanto comunidade no exílio parou no tempo. “Quando cheguei ao Irã pela primeira vez”, ela conta, “eu não conseguia entender minha identidade, se era americana, se era iraniana. Lá, descobri que a vida era normal, meus pais é que eram caretas.”

A história se impôs ao regime inaugurado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. A guerra entre Irã e Iraque matou tantos, entre 1980 e 88, que uma geração de homens desapareceu. Hoje, o Irã é jovem e antenado. Mesmo que a polícia moral quisesse prender todos, não conseguiria. “São eles, os jovens”, conta a antropóloga, “que chamam o que está ocorrendo de Revolução Sexual.” Pardis acaba de lançar um livro sobre as mudanças, um relato antropológico chamado Passionate Uprisings.

Uma revolução sexual não se faz apenas de sexo, amor e busca pela paz – ela tem características mais profundas. Um elevado número de mulheres com formação superior, por exemplo, que buscam espaço no mercado de trabalho. O Irã as tem em número cada vez maior. Revoluções sexuais também mudam a conversa. Sexo deixa de ser assunto tabu. Nas suas últimas visitas, quando já decidira escrever o livro, Pardis conversou com inúmeros pais de jovens. Encontrou-os mais francos do que seus próprios pais, nos EUA, que jamais falam sobre sexo.

Há duas vidas em Teerã. A primeira é aquela na rua. Os homens têm seus braços cobertos, usam barbas. As mulheres cobrem-se todas. Mas debaixo do mantô e do véu, há unhas pintadas, jeans justos – às vezes, minissaias. Aquilo que a vestimenta islâmica não revela num fingir-se religioso é apresentado no interior das casas e apartamentos. Nas festas, há concertos de rock, leitura de poesias, exposições. Dança-se à música alta.

Xaveco da Polícia Moral

Nem toda festa é como aquela da grande orgia, mas em toda há um quarto ou dois onde os casais se encontram. Sexo entre namorados se arranja. Mas, se a festa não é numa mansão cujo dono é do alto clero, a possibilidade de uma batida da Polícia Moral está sempre ali. Em sua primeira viagem, Pardis conheceu uma vítima: uma moça bonita, sentada ao seu lado no salão de beleza (todas as jovens em Teerã frequentam toda semana um salão). A moça fora flagrada num quarto, numa festa, com o namorado. Passou uma semana na cadeia. Carregava nos tornozelos e costas as marcas da chibata.



Mulher é detida pela polícia moral na capital Teerã





Num país com os índices demográficos do Irã, tudo muda muito rápido. Naquela sua última visita de 2007, ela vinha da festa com uma amiga, no carro. As duas tinham o proibido álcool no hálito, então o farol do carro atrás piscou e veio o terror: eram dois homens da Polícia Moral. Elas pararam, os dois jovens saltaram e se encaminharam. Não queriam levá-las para a prisão. Queriam seus telefones. Era uma cantada. Os velhos deixam a função e os jovens que a assumem vivem a mesma cultura do underground de Teerã.

Sexo casual é mais complicado para aqueles que não querem as orgias. Mulheres da alta classe do norte de Teerã tomam rumo da periferia ao sul para se encontrar com homens com quem não convivem socialmente. O mesmo fazem as meninas da periferia que vão ao norte. O sexo entre classes resolve o anonimato. Sexo entre mulheres também está ficando comum – mas, lá, as jovens sequer o veem como um flerte com a homossexualidade. É uma extensão natural da amizade discretamente apoiada por todos.

Na televisão, o presidente Ahmadinejad diz que não há gays no Irã. Ou proíbe que mulheres frequentem estádios de futebol. Mas, sem que ele possa controlá-la, a revolução sexual continua seu curso. “Um dia, essa garotada terá o comando do país”, diz Pardis. “É impossível prever as mudanças que eles trarão.”


Fonte: Revista Trip

"Aquarela do Brasil" - Pato Donald e Zé Carioca

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Você entende as expressões de um robô?

Fonte: http://info.abril.com.br/noticias/ciencia/voce-entende-as-expressoes-de-um-robo-19102009-40.shl

Você entende as expressões de um robô?





Getty Images
Você entende as expressões de um robô?
O robô C3PO, de Guerra nas Estrelas: é fácil compreender o que seu rosto que dizer?
  • RSS
  • ENVIE
  • IMPRIMA
  • ESPALHE

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Big Brother Belchior


Antes de sair de casa, peça a bênção a Patricia Poeta


Francisco Bosco

No famoso plano-sequência de Profissão: Repórter, o assassinato de David Locke é narrado de modo indireto, por meio de uma janela com grade. Mas a força da cena não está exatamente em seu caráter indireto - o qual sempre se exalta - e sim na mediação da janela gradeada. Como se sabe, o repórter David Locke aproveita-se da morte de um desconhecido em um vilarejo remoto na África para falsificar sua própria morte e assumir a identidade do outro.

O que está em jogo para ele é uma tentativa de sair radicalmente de si. Como repórter, ele viaja o mundo fazendo entrevistas, matérias, documentários, mas sente que os deslocamentos geográficos e culturais não o levam a afastar-se de si próprio, pois ele, em suas palavras, acaba codificando toda a diferença nos seus (dele) próprios termos, fazendo-a desembocar sempre de volta no registro da identidade. Ao valer-se da morte de um desconhecido para tentar desconhecer-se, Locke vê-se herdeiro imediato da vida desse outro, David Robertson, um traficante internacional de armas.

Passa, então, a ser perseguido por agentes de um governo africano, pois Robertson fornecia armas para uma guerrilha que se lhe opunha. Ao mesmo tempo, a ex-mulher de Locke descobre que a morte de Robertson foi falsificada e começa ela também a persegui-lo. Locke não demora muito para concluir que sua tentativa fracassara. Não lhe bastara colar sua foto no passaporte de outro para transformar-se em outra pessoa. Pior, agora ele estava multiplamente emparedado: dentro de si mesmo, dentro da realidade de outro (mas não de sua subjetividade) e dentro de seu passado, que não pudera aniquilar. O emparedamento descortina-lhe o nome: David Locke, Locke D., ou seja, locked, trancado.

É por isso que o famoso plano-sequência é narrado através da janela gradeada, que assoma, então, como o correlato material da impossibilidade existencial a que se lançou Locke. Dentro do quarto, ele dorme, enquanto, pelas grades - portanto, da perspectiva dele -, vemos a realidade que lhe assaltaria, mas que ele não podia alcançar. Vemos, então, os agentes chegarem, andarem na direção do hotel e saírem do enquadramento.

Em seguida, ouvimos um tiro. A partir daí há uma extraordinária inversão de perspectiva. A jovem que Locke conhecera em Barcelona e passara a acompanhá-lo em sua fuga entra no quarto no mesmo momento que a ex-mulher dele, acompanhada da polícia. O policial pergunta, primeiro à ex-mulher: "Você o reconhece?", ao que ela responde: "Eu nunca o conheci". Em seguida, a mesma pergunta é dirigida à jovem, e sua resposta é: "Sim". Essa cena é narrada de fora para dentro da janela gradeada.

Da perspectiva da ex-mulher, havia também um emparedamento em Locke; ela nunca pôde conhecê-lo, embora tivesse vivido com ele muitos anos. Já a jovem, cujo nome não vem à tona, e a quem Locke se apresentara sob um nome falso, afirma, sem hesitar, tê-lo conhecido (confirmando uma frase de Barthes segundo a qual "conhecer alguém é conhecer-lhe o desejo").


Onde está Belchior?

O filme de Antonioni é de meados dos anos 1970. Sua questão é existencial: é possível reinventar-se completamente, ser radicalmente outro? A resposta do filme é não - mas não é isso que desejo investigar aqui. Quero chamar atenção para o fato de que, mesmo sendo Locke um repórter, a mídia não é uma questão fundamental para o filme. As forças que lhe saem à captura são a polícia, os agentes do governo africano e sua ex-mulher, ajudada pela embaixada. Locke consegue sair da África e ir para Londres, daí para Barcelona, daí para cidades pequenas na Espanha, até ser encontrado - e tudo isso se passa em registro de experiência privada. Agora cortemos para agosto de 2009, onde vamos acompanhar outra perseguição, bem diferente.

A primeira notícia de que Belchior havia desaparecido foi publicada num site. Nele, depoimentos de amigos e parentes afirmavam desconhecer o paradeiro do cantor. Daí em diante pipocaram novas matérias. Os maiores jornais do país noticiaram o sumiço, o Fantástico fez uma matéria, até a imprensa estrangeira repercutiu o assunto. Novas informações começaram a aparecer: Belchior teria dívidas com hotéis e estacionamentos. Especulações também surgiram: com a carreira em baixa, o cancionista estaria tentando criar um factoide que o levasse novamente aos holofotes.

E não faltaram, é claro, as piadas na internet: numa delas, Belchior figura entre os personagens do seriado Lost; noutra, murmura-se que seu desaparecimento faz parte de um mistério mais amplo, a envolver o sumiço de outros cantores, como Biafra, Silvinho (aquele do ursinho Blau Blau) etc. O mistério levou apenas três semanas até ser esclarecido, pelo Fantástico, que na edição do dia 30 de agosto revelou o paradeiro de Belchior e arrancou dele uma entrevista. Ao assistir à reportagem do Fantástico, fiquei ao mesmo tempo indignado e apavorado.


Vigiar e perseguir

Antes de entrar a reportagem, um solene Tadeu Schmidt anuncia o fim do mistério: Belchior foi localizado pelo Fantástico. Em seguida, Patrícia Poeta, em tom de reproche maternal, diz que o cancionista, "que se afastou da família, dos amigos e dos fãs, deu as suas razões à repórter Sônia Bridi". Pronto, começou o pesadelo.

O que vem a seguir é uma demonstração assustadora do funcionamento de uma sociedade de controle, onde um desvio existencial, mesmo que não diga respeito a mais ninguém, é tornado objeto de visibilidade, escrutínio, sarcasmo e julgamento públicos. É importante observar que a perseguição a Belchior não partiu da Justiça, a fim de que ele saldasse suas possíveis dívidas, mas sim da mídia; isto é, não foi movida por um legítimo interesse público (que não se confunde com uma espetacularização pública), mas por uma mistura de jornalismo de fofoca e vigilância coletiva, por meio da qual se pode ler um sintoma, a que voltarei.

O Fantástico recebeu pistas de pessoas que haviam estado recentemente com Belchior. Por meio delas, reuniram-se evidências de que ele estivera nas últimas semanas no Uruguai. Sim, evidências, porque foram enviadas fotos de Belchior em situações privadas (com o acoplamento de máquinas fotográficas em celulares, todo cidadão que os possui torna-se um delator em potencial). Em seguida, os repórteres receberam um e-mail anônimo que revelava o paradeiro de Belchior: ele estaria na pequena cidade de San Gregorio de Polanco, nos pampas uruguaios. O Fantástico não demorou a achar a pousada em que Belchior estava hospedado. Ao ligar para ela, alguém disse que o (a esta altura) fugitivo estivera lá, porém já fora embora. "Mas era mentira", conta a repórter Sônia Bridi, que, desconfiada, vai até lá e chega à porta de Belchior com a câmera ligada.

Já então era óbvio que Belchior não queria ser encontrado. Mas o desejo - e esse desejo não deve ser reconhecido como um direito? - de privacidade não conta para o Fantástico. A repórter bate na porta, Belchior não quer conversa, mas ela insiste, ronda a casa, sussurra com a voz mais cínica do mundo: "A gente veio de tão longe pra te encontrar, tem tanta gente te procurando lá no Brasil...".

Belchior deve ter resistido por horas, pois as primeiras imagens são ainda de dia, e quando ele finalmente cede já é noite. Sai de casa e quase podemos ouvir o famoso bordão futebolístico: "Taí o que você queria". O Fantástico triunfa, o que há de mais desrespeitoso nas pessoas também. E Belchior? Com uma aparência existencialmente saudável, ironiza com sutileza e bom humor o absurdo da invasão; diz ter achado estranha a primeira matéria do Fantástico (que ele viu pela internet), que aquilo nada tinha a ver com ele, e que ele não é uma celebridade.

Em seguida, recusa-se, com coragem firme, a responder a questões a respeito de sua vida privada. Num momento antológico, constrange a repórter - e, por extensão, espero, todos que compartilhavam ali a posição dela - ao afirmar que não tem interesse pela vida privada de niguém. Esclarece que sua presença ali se deve a um trabalho "muito especial" que está sendo desenvolvido por ele, a tradução de todo o seu cancioneiro para a língua espanhola, aproveitando para lembrar sua ligação com a América Latina, citando seu verso "Eu sou apenas um rapaz latino-americano".

Da perspectiva do perseguidor, o ponto central da cena reside na seguinte pergunta da repórter: "Você não deixou de fazer contato com sua família, com seus amigos, nesse período?". Essa pergunta retoma o tom de mamãe controladora de Patrícia Poeta. Nela está implícito nada menos do que isso: ninguém tem o direito de abandonar (mesmo provisoriamente) sua família e seus amigos, e se tiver essa audácia será julgado em público por ela. Ninguém tem o direito de em algum momento querer reinventar-se, ou simplesmente querer afastar-se, sem pedir a bênção aos demais.

A perseguição a Belchior, então, parece assumir um caráter sintomático: é precisamente porque todo mundo tem, já teve, terá ou pode ter esse desejo de reinventar-se, e não consegue realizá-lo ou nem ao menos assumi-lo, que aquele que o levou adiante deve ser perseguido, descoberto e recolocado em seu lugar. Deve ser lembrado de que tem satisfações a dar e de que, no limite, sem o consentimento dos outros, não pode se afastar deles. Pois os outros não querem ser lembrados de suas próprias covardias ou mediocridades existenciais.

É tênue a fronteira entre a curiosidade, o jornalismo e o desrespeito brutal. É revoltante (e apavorante) que essa questão não seja sequer colocada pelos que estão prestes a atravessá-la. Nos anos 1970, David Locke estava trancado em sua subjetividade; o caso Belchior vem nos lembrar que, hoje, estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca se fecham.


franciscobosco@terra.com.br


Fonte: Revista Cult - Edição nº 140